A trigésima sétima rosa

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Flores estão presentes em muitos momentos marcantes na vida das pessoas. Suas cores, aromas e beleza evocam sentimentos e deixam o ambiente onde estão mais leves e fluidos. Há quem não goste ou quem prefira as de plástico já que não morrerem, como canta aquela antiga canção dos Titãs; mas prefiro as plantas e flores bem vivas que carregam na sua efemeridade aquilo que precisa ser contemplado aqui e agora.

Conheço um senhor que desde o início do namoro – e isso já tem mais de 50 anos – que vez e outra colhe uma florzinha do jardim e coloca ao lado da xícara do café da manhã de sua amada. Aquela pequena florzinha expressa bem o que significa um amor cultivado com pequenos gestos de carinho no cotidiano. Casamentos em sua decoração não dispensam flores, desde arranjos modestos até verdadeiras obras arquitetônicas florais, para todos os gostos, estilos e bolsos… A questão é que além de beleza, as flores evocam felicidade – voto uníssono de desejo aos recém-casados. Nas igrejas históricas sempre encontramos flores sobre o altar, estas simbolizam a multiforme criação de Deus. Na celebração de aniversário, advogo pela troca de balões emborrachados sem vida por flores… No leito de uma pessoa enferma, uma flor sempre é o desejo de uma boa recuperação.

A hora da morte também tem flores. Coroas de flores. Rosas avulsas depositadas sobre o ataúde. Flores e morte parecem até não combinar… Talvez a beleza das flores tente mascarar o horror que é a morte, talvez as flores sejam uma última prece de gratidão ou quem sabe um pedido de perdão. Para os cristãos as flores simbolizam a beleza da vida eterna e uma lembrança aos que seguem vivos de que a vida é como a relva que murcha e flores que secam e caem. Quando era criança, tenho vívida lembrança de minha avó voltando de velórios e contando (até empolgada!) de como havia muitas flores sobre a sepultura. Dava-me a sensação de que as flores tinham um poder de catarse, de embelezamento daquele dia difícil e de solidariedade para com a família enlutada. Até concordo com minha avó, mas ainda acho que flores deveriam ser presente para os vivos.

Dias atrás visitei uma senhora que completava com seu esposo mais um ano de casamento. Ele, num gesto romântico, havia presenteado à sua amada uma rosa branca por cada ano vivido lado a lado. Eram tantas rosas brancas que precisou de dois vasos: um sobre o aparador da sala e outro sobre a mesa da sala de jantar. No fim da visita, recebi uma rosa branca com um abraço de gratidão. A trigésima sétima rosa está aqui na minha sala, lembrando-me que um coração grato é sempre florido.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.