A tevê me disse que estou ficando velho

Ter nascido no derradeiro ano da década de setenta pode lá ter suas vantagens: vi Roberto Baggio desperdiçar o último pênalti da Copa de 1994; comprei o In Utero do Nirvana em vinil pouco depois do seu lançamento; assisti ao Cine Privé da BAND e o Cocktail do SBT, crente que aquilo era o máximo em se tratando de erotismo e sensualidade; fiz aula de datilografia.

Essa — digamos, que — bagagem, hoje em dia, serve pra quase nada. É como aquela mala de couro com fivela que somente se encontra na casa do vô e da vó, isso se você tiver tido a sorte (será?) de ter nascido mais ou menos entre o final dos anos setenta e meados dos oitenta. Uma mala como essa é item de museu e olhe lá. O Tetra, Nirvana, Sylvia Kristel, Miele e máquinas de escrever são coisas de mais de vinte anos atrás. Duas décadas. Dez mais dez. Dá pra entender?

Quando o Duran Duran começou a tocar Ordinary World no show que a banda fez no Loolapaloza no último domingo, a primeira lembrança que me veio à mente foi a MTV. Cansei de ver o clipe no Top 10 nos dias de semana e no Top 20 nos sábados à tarde. Mas, de repente, eu estava sentando no sofá de casa assistindo ao show dos caras, cinquentões ou mais que isso, usando ternos amarelos e azuis, igual faziam há trinta anos.

Essa experiência à frente da televisão fez com que assistisse shows de outras tantas bandas que nunca ouvi falar, mas que provocam lágrimas e histerias semelhantes àquela que o Nirvana chupou dos Beatles para a montagem do clipe de In Bloom. Não me pergunte para repetir seus nomes aqui. Já esqueci e embora, no fundo, no fundo, sinta um certo remorso por achar que esteja defasado, não saber o nome dessas novas bandas, não faz nenhuma diferença.

Eu compartilhei no meu perfil no Facebook o vídeo de uma música nova do lendário Deep Purple, banda (essa sim) que hoje conta, em sua maioria com integrantes septuagenários, que faz parte da minha história, do meu crescimento, da minha adolescência, da minha vida, cacete, e o link teve três míseras curtidas. Isso mesmo: TRÊS. 3.

Ai só, por curiosidade, já que ninguém vai se importar mesmo, penso: ou as pessoas não se importam, não sabem ou não lembram do que se trata (não esqueça, ainda estamos falando dos caras que compuseram Smoke on the Water) ou eu falhei em algum desses vídeos sobre o uso correto das mídias sociais ou tá todo mundo mais preocupado em saber qual será o próprio meme — isso se não estiverem todos tentando serem os próprios criadores do próximo viral da internet e das redes sociais.

E isso tudo é muito estranho. Os repórteres (se é que dá pra chamá-los de repórteres) da emissora de tevê por assinatura, volta e meia me lembravam que pela internet era possível acompanhar aos shows com comentários feitos por youtubers. Exato. Esses meninos e meninas (posso chamar de moleques?) que nunca ouvi falar, mas que são famosos pelos vídeos opinativos que postam no Youtube. É surreal, eu sei. Ontem eu tinha uma coleção de CDs e DVDs e hoje isso não vale um sorvete seco com um revólver de brinquedo de brinde. Hoje tem Netflix, alguém vai me avisar via mensagem no whatsapp.

Mas aí essa mesma grande rede me diz ou tenta me dizer que eu preciso apostar em mídias sociais para ter sucesso, e um monte, mas um monte mesmo, de vídeos (eles de novo), que não pedi pra ver, aparecem na minha timeline, tentando me convencer a investir em um curso que vai me transformar no ó do borogodó em se tratando de novas mídias. Uau, minha vida será salva e minha aposentadoria garantida. Basta que eu assista e compre online o tal curso. Não preciso nem sair de casa, olhe só. Posso ficar o dia todo, só de cueca, sentadinho na minha cadeira de estimação assistindo vídeos que vão me ensinar a ser “o cara”.

Porque assim, quem sabe, eu não me sinta tão anacrônico, imaginando mil e uma sandices para tentar arrebanhar umas curtidas extras no Instagram, nem ache perda de tempo a leitura de uma xérox com os escritos de Walter Benjamin: “a informação só tem valor no momento em que é nova”.

A essa altura, uma dessas pseudo celebridades acabou de postar um vídeo novo no Youtube com alguma teoria mirabolante para explicar o porquê de Nescau ser melhor que Toddy. E olhe só, em segundos já teve mais views que todas minhas fotos no Instagram já tiveram e terão mesmo que eu viva por trezentos e vinte e oito anos, duzentos e dez dias, catorze semanas, três minutos e quarenta e dois segundos.