A primeira garota que ignorei

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Não sei o que especificamente me fez lembrar dessa história, assim, como uma imagem viva refletida na memória, mesmo passadas mais de duas décadas.

Os cabelinhos loiros esvoaçantes, as bochechas rosadas e o sorriso doce e infantil, sempre pronto e armado, certeiro.

A primeira garota que ignorei.

É.

Aquela que talvez devesse chamar ou considerar como primeiro amor.

Estávamos na primeira série. Ela não se cansava de tentar chamar minha atenção, em todo canto e lugar, sem nenhuma chance de eu sequer respirar, afinal, não me interessava à época pensar em meninas.

Mas, sei lá, as meninas pensam e agem diferente — e muito — dos meninos.

Certa vez, ela e outras coleguinhas armaram um cerco para me pegar, capturar, ou sabe se lá o que.

E eu fugi, entrei em pânico.

Queria jogar bola.

Mas, quanto mais eu fugia e a ignorava, mais ela gostava, mais ela procurava, mais ela sorria.

Eu lembro que de uma hora para outra ela não voltou à sala de aula. Deixou de ser minha coleguinha.

Parou de me perseguir.

Parou de sorrir para mim.

Mudou de cidade, de Estado. Eu, confesso, fiquei triste. Por mais que fugisse e me sentisse desconfortável com aquele grude todo, gostava dela.

Éramos crianças, coleguinhas, oras.

Nunca mais a vi.

Soube, muitos anos mais tarde, na adolescência, que ela havia falecido em um acidente de moto. A notícia foi um choque. A primeira garota que gostou de mim — não creio que o verbo amar seja a melhor opção aqui — de verdade me deixou tão somente com a vaga lembrança do que compartilhamos na inocência dos nossos cinco ou seis anos.

A primeira garota que ignorei.

Primeira, não única, que fique claro, talvez, para que eu receba os apupos a que tenho direito.

Gostaria de saber como ela estaria se não tivesse subido na garupa daquela moto, que profissão teria seguido, se seríamos amigos virtuais, se ainda se lembraria de mim.

Ter a chance de dizer que sinto saudades. Desculpar-me, talvez.

O sorriso da primeira garota que ignorei ainda vive, e assim, continuará, por todo sempre.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.