A melhor macarronada que já comi na vida

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A melhor macarronada que já comi na vida

Tenho pra mim que será cada vez mais raro aquele riso de dentes à mostra. De regozijo, de contemplação dos reais prazeres do bem viver. Que fique bem claro, acho tudo isso uma baita pena.

Estou numa fase dessas. De amostragem da minha diastema. Sei que é passageiro. Eis, o problema. Há um ditado a nos alertar desde muito que tudo que é bom dura pouco. Provável, que pra semana que vem, se muito a seguinte, retorne a rotina de cara emburrada. A campanha eleitoral se aproxima sem que seja possível um mínimo de esperança sobre o futuro.

Logo haverá um rompimento completo do período de transição do medo para o mais completo e irreparável pânico. Se rio – com o perdão do trocadilho – é, literalmente, para não chorar. Só não enxerga o retrocesso quase em vias de enfiar a agulha debaixo das nossas unhas quem não quer.

Antes fosse apenas impressão de quem está com os cabelos se despedindo.

Não é.

Nenhum lugar do mundo é capaz de se desenvolver sem que exista um mínimo de investimento em educação e pesquisa, no entanto, contrariando a lógica, aqui – em terra brasilis – a tendência é que sigamos em queda livre, como se após termos alcançado o vigésimo andar, por um descuido tolo, começássemos a despencar, com chances consideráveis de ficarmos irreconhecíveis e, talvez, sem condição alguma de recuperação.

Segunda-feira passada comi a melhor macarronada de toda minha vida, ainda embevecido pela oportunidade de discorrer sobre arte, literatura, escrita e o hábito prazeroso da leitura. Repeti como um velho LP riscado o quão grato me sentia e, mais, o quão delicioso estava o manjar. Por fim, parece-me que essas singelezas estão em vias de se extinguirem e não passamos de uma meia dúzia de rebelados tentando fomentar o que, nas entrelinhas, já está taxado como obsoleto por uma maioria em fúria.

Há um pássaro cantando lá fora. Devo ser o único atento a sua melodia. Quisera ter conhecimento para identificar a espécie. Estudado mais, prestando mais atenção as aulas de ciências, de biologia. Sei lá. A moça bonita de óculos que me acompanha também não sabe. É quase um sinfonia. O som dos carros engole tudo da janela para fora. Não há mais tempo para o simples. É preciso correr, pisar um pouco mais no pedal do acelerador.

Produzir.

Expediente fechado, sem direito a hora extra e um bocejo indesejado perto das vinte e duas, quando os dedos do pé e a meia de anteontem transformaram-se em um só. Uno.

Sufoco.

Apuro.

Engasgo.

Apneia.

Hoje pela manhã me lembrei do Renato. O cara da Legião Urbana. Cantei um trecho daquela velharia chamada “Que país é esse”. Perdi a conta de quantas vezes invoquei alguma de suas letras. Sua poesia.

Emposte a voz como o Russo, cante: “O Brasil vai ficar rico, quando vendermos todas as almas”, não só dos índios, mas, dos brancos, negros, amarelos, mestiços, altos, baixos, magros, gordos, xises e ípselones.

Queria que a cantoria do pássaro não cessasse, assim como, o riso de dentes à mostra, a esperança de um país onde se priorize educação e pesquisa, e, onde, seja possível lambuzar a ponta do bigode com a melhor macarronada que já comi na vida, todos os dias, sem medo, pânico, sufoco, apuro, engasgo ou apneia.

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Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.